


Você pode dizer: que imagem absurda, essa! É impossível para o grão de areia controlar qualquer coisa, até mesmo seu próprio tamanho e densidade, quanto mais a força do vento ou o movimento das marés!! Se essa imagem lhe parece absurda é porque você ainda não parou para contemplar (à distância) a luta sempre perdida da humanidade com sua própria finitude, alijada da consciência de sua natureza divina.
Esses grãos de areia alucinados e descolados da própria realidade somos nós, os seres potencialmente humanos - que somos centelhas divinas e filhos de Deus, inconscientes de que somos praia, que constituímos um todo que nos completa e nos transcende. Dessa inconsciência alguns problemas podem surgir, dentre eles:
Vento é tudo que nos retira da nossa zona de conforto; o diferente de mim, que vibra no outro, de preferência como algo que seja parte importante da sua essência: pode ser cor da pele, crença religiosa, identidade sexual, identificação política... . Como eu temo ir para junto de tudo e todos que sejam diferentes de mim e que desconheço, preciso fazer o possível e o impossível (se der) para manter esses outros seres humanos e seus respectivos contextos e histórias de vida diferentes da minha, bem longe de mim. Esta crença desconsidera o fato de que cada um de nós sequer conhece a si mesmo o suficiente para ser capaz de definir o que seja diferente de si mesmo.
As principais ferramentas utilizadas são o preconceito e a discriminação. Elas podem se diversificar em capacitismo, inclusão perversa, caridade hipócrita em diversas formas sub-reptícias, e por isso mesmo, potencialmente mais eficazes e letais.
Se estes não funcionam, é sempre possível ter à mão a mentira e a maledicência, fortalecidas e potencializadas a níveis inimagináveis, pelas redes sociais.
Por meio das redes sociais ainda é possível lançar-se mão de outra estratégia nefasta: a criação de narrativas cuja força de adesão ao imaginário das massas podem não só confrontar, como sobrepujar a realidade.
Se esses “diferentes” ainda persistem em existir perto de nós depois de lançarmos mãos de todos esses recursos, restam ainda as medidas mais radicais de “neutralização” do outro e da realidade do outro em nossas vidas, que são velhas conhecidas da história humana, como a guerra e o extermínio.
Sem perceber que não é possível separar o grão da praia sem reduzi-lo a pó, seguimos como zumbis a ilusão de que somos separados. Há uma ideia no senso comum de que temos dificuldade de lidar com as diferenças. Essa dificuldade pode até existir, mas não é maior do que a dificuldade de lidar com o que temos de semelhante: todos nós, do Oiapoque ao Chuí, da Antártida à Austrália, da China aos Estados Unidos, desejamos ser amados, pertencer a um grupo que nos aceite e valorize, ter acesso a bens que nos proporcionem qualidade de vida e conforto. Da mesma forma, todos nós, tememos o que não conhecemos, a doença grave e a morte.
Somos iguais, apesar de toda diferença, e isso é difícil de aceitar. Somos Um, mesmo sendo muitos e singulares. Como partes da Grande Praia, somos mortais para a forma e imortais para a Natureza, que a despeito de sermos levados pelo vento para praias distantes, sempre nos reconhecerá como partes de si mesmo. Assim como somos partes do Universo, mortais para o corpo e imortais para o Espírito de Deus.